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Conseguem as estátuas dançar?

Conseguem as estátuas dançar?

por, Carlos Granja
15/06/2020

Estes tempos de pandemia não nos trouxeram a estranheza apenas, trouxeram igualmente a exasperação. Se fomos capazes de impulsionar um movimento profundo de solidariedade que verteu sobre a humanidade um sinal de esperança, logo os acontecimentos seguintes deitaram por terra qualquer ilusão formada sobre o destino da humanidade. Os nossos hábitos altamente consumistas, a expansão do capitalismo e o peso da economia sobre a sociedade, fizeram de cada cidadão aquilo que numa perspectiva calculista jamais seria novidade, cada um serve a numerologia do estado. Não passamos de um parco número para acrescentar à estatística. E sentimos estar numa luta desigual contra uma instituição que ninguém sabe quem é. Não tem nome, não tem rosto, não tem identidade.
Enquanto soavam as campainhas, confirmava-se o aumento do desemprego e a entrada na precariedade de muitas famílias. Não estão todos afinal no mesmo barco. Muitos continuaram no luxo dos cruzeiros e outros tiveram de construir as suas jangadas. Mas muitos permaneceram sem troncos para as construírem. Sobraram tábuas para o caixão, embora, mais um número, as cremações tenham vindo a aumentar no nosso país. Mais uma vez, os números cruéis que interessam ao estado. No seio das cativações, o que dizem os nórdicos dos países de sul tem o seu pingo de verdade, gastamos muito e produzimos pouco. Será mesmo assim ou é apenas inveja do nosso modo de vida? É que somos mesmo muito bons em algumas coisas.
O levantamento popular em torno da causa anti-racista tem todo o sentido de ser. Embora em realidades distintas, porque não podemos comparar países como o Brasil ou os EUA com Portugal, há efectivamente muito a resolver na nossa malha social. E digo malha porque o assunto é delicado e que toca vertentes sensíveis da nossa sociedade. Não bastam as manifestações, não só porque se repetem ao longo das décadas, mas também porque o problema reside ainda mais além do que têm vindo a ser as reivindicações. O estigma da cor da pele está presente logo à nascença num espectro social que muito se relaciona com o seio familiar. Aqui a sociedade faz pouco. Porque se acomoda. A culpa não é apenas dos políticos. Aceitamos normalmente o que é inaceitável, porque nos acomodamos.
Não podemos aceitar a precariedade no trabalho, a diferenciação no acesso ao emprego, a desigualdade de oportunidades, o elitismo e os favorecimentos. Não podemos aceitar qualquer forma de racismo ou xenofobia, sendo que os nossos comportamentos são a resolução para todos os problemas sociais existentes. A norma é a liberdade de afirmação de identidade, o contrário é afirmar os mesmos comportamentos da Idade Média. Os tempos são outros, mas ainda resistem uns vestígios de supremacias completamente desajustadas da actualidade. Do mesmo modo, são perigosos os anacronismos que não consideram as vicissitudes de época. O que para nós é chocante hoje, era aceitável há 500 anos. Da mesma forma que daqui a 500 anos não serão aceitáveis muitos dos nossos comportamentos de hoje.
A questão das estátuas podia ser acessória, mas não é. A História e o seu decurso não podem ser apagados. Mas quem constrói a História? Não são os seres humanos, com os seus erros, defeitos e virtudes? É difícil conciliar as vontades, os pensamentos e as ideologias, mas tudo o que reporta ao bem comum e colectivo não deveria carecer de qualquer consenso. Por natureza ninguém deveria ser racista, violento, agressivo ou insultuoso. O mundo não é perfeito. O tempo ditará o certo e o errado. O tempo ditará o curso da História. O que estiver ao alcance de cada cidadão deve ser amplificado e duplicado nos seus comportamentos. A pandemia deu-nos um sinal forte do caminho que devemos evitar, o consumismo, o estrangulamento pela via do materialismo, as questões ambientalistas por resolver, as alterações climáticas por travar, a extinção de animais para combater, a natureza por defender, os hábitos de vida por alterar. Temos tanto por onde ir. Mas a essência do ser humano não nos dá tréguas.
As estátuas não sabem dançar. Estão estáticas, imóveis, sem efeitos práticos no mundo contemporâneo, porque em trezentos anos muitas coisas se alteraram na sociedade. As estátuas podem fazer referência a tiranos, a ditadores, a pessoas de má índole. Não é justo perpetuar a memória de alguém que contribuiu para o mal. Mas nesta onda de indignação, poderemos incorrer em injustiças, no erro dos anacronismos vigentes, num politicamente correcto que ao acrescentar perturba. Se a pandemia nos poderia trazer alguma noção de solidariedade, também nos roubou discernimento, no que à humanidade diz respeito. Resta-nos continuar a acreditar, por conforto espiritual, por arejamento no futuro próximo.

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