O domínio descontrolado das redes sociais

O domínio descontrolado das redes sociais

por, Carlos Granja
13/07/2020

O famoso advento da era digital tem provocado a grande distopia da humanidade. Vivemos em grandes contrastes, num mundo sem consensos, altamente incongruente, que se acentuou com a pandemia. O avanço da tecnologia não foi devidamente acompanhado pelo desenvolvimento social. Recorro a Aldous Huxley e ao seu livro “Admirável mundo novo”, que aborda os conceitos da distopia no tecido comportamental da sociedade. O termo em si foi usado por John Stuart Mill, em 1868, no Parlamento Britânico, referindo-se ao negativismo da distopia nos políticos. Huxley explorou no romance acima citado a imagética de uma sociedade subjugada à distopia do estado. Orwell também o fez na sua escrita. Admirável Mundo Novo foi publicado em 1932 e a sua narrativa decorre em Londres, no ano de 2540. Na verdade, Huxley antecipa uma realidade que não sendo totalmente verosímil nos dias de hoje está perfeitamente enquadrada no tempo.
Da mesma forma, Orwell descreveu a distopia na década seguinte no seu soberbo romance com o título de “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”. Estamos aqui perante dois romances distópicos e obrigatórios para leitores atentos e interessados. O “Grande Irmão” controla o estado e consolida o culto da personalidade, subjugando os cidadãos aos seus interesses e transformando a sociedade à sua imagem. A tirania não é novidade do século XXI. Se olharmos o mundo que nos rodeia, apesar da democracia e da liberdade de expressão, é perturbador que neste nosso século ainda se debatam questões que serviriam a Huxley e a Orwell como inspiração para a sua escrita.
Mas temos vários pontos que se tocam, na democracia, que ideologicamente tende a ser perfeita, é fácil de perceber que só não o é porque sempre foi aplicada por seres humanos, há sérios problemas para resolver. Desde a corrupção às promiscuidades, à ditadura do politicamente correcto e ao controlo do estado nas diversas áreas sociais, temos laivos de seguidores distópicos, na luta pelos pequenos poderes, de passagem no tempo e nocivos para o bem comum. Não é por acaso que Orwell escreve “O triunfo dos porcos”, onde estes animais encetam uma revolução na quinta do Sr. Jones, fartos do mau tratamento que recebiam e da fatalidade que lhes estava reservada. Os seres humanos não são propriamente o exemplo do animal perfeito, que é sempre racional, belo e inteligente. Tem os condimentos necessários para vencer no planeta, em que consegue subjugar e aniquilar as outras espécies, mas também não sabe preservar os espaços onde vivem, nem assumir a paz com a importância que todos os povos merecem.
O “Big Brother” está na colheita dos seus frutos, é uma instituição que ninguém conhece, mas existe e de quem quase todos têm medo. A sociedade, completamente anestesiada, participa activamente neste festim, pois colabora sem se dar conta da forma e do conteúdo. Até porque a vida privada está hoje voluntariamente partilhada nas redes sociais, determinando inúmeras interpretações, tantas vezes descontextualizadas, mas com o firme propósito, na sua maioria, de replicar o individualismo. Cada ser projecta-se no mundo virtual, aceitando as regras de jogo, mas ignorando o alcance das mesmas, caindo na ilusão avassaladora do momento. A curto prazo há retorno, mas no médio prazo a glória amplificada dilui-se no “admirável mundo novo” das novas tecnologias. A vida corre muito depressa e as pessoas já nem se conseguem acompanhar. Somos meros espectadores no nosso palco. Ou melhor, somos os actores nessa ubiquidade de assistirmos na cadeira à personagem que representamos.
A forma como a sociedade se vem definindo no século XXI, sem qualquer tendência para culpar as gerações mais jovens, pois estas foram formadas pelas gerações que hoje se queixam precisamente da juventude. Não é coerente culpar-se uma geração ainda a ganhar identidade quando foram formados pelos mais velhos, chamando estes a si a incompetência do seu ensino. Estes jovens nasceram e cresceram no permanente alvoroço digital, no caldeirão das novas tecnologias, não sabem viver de outra forma porque não conhecem outra realidade. Mas, verificando as estatísticas da Pordata e outras que vão sendo reveladas por diversas instituições oficiais, percebemos que as gerações mais velhas fazem mau uso das redes sociais, escancaram a vida pessoal, criam conflitos, criam o culto da personalidade, iludem-se com uma imagem de fama imediata que é falaciosa, mas que amacia o ego. São precisamente as gerações mais velhas, que nasceram e cresceram numa época em que a internet era uma miragem, que desenvolvem, por força da má interpretação, notícias falsas e amplificam o medo e o receio, sem qualquer cuidado e sem filtrar o que lhes é dado a ler. Assim é muito fácil para o “Grande Irmão”. Leia-se, para quem não leu ainda, Huxley e Orwell, está lá tudo.

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